23/03/2017

Fez-nos falíveis

por Orson Peter Carrara

Não é difícil constatar a realidade das imperfeições morais que todos carregamos. Ainda somos seduzidos pela vaidade, pela ganância, pela arrogância. Também sucumbimos às variadas paixões, pelos interesses egoísticos, pelo orgulho desvairado. Somos capazes de manipular nos bastidores, transitamos com malícia e libertinagens nos caminhos da mentira e da corrupção; mentimos, trapaceamos, enganamos, enganamos a própria consciência. Cobiçamos bens alheios, invejamos posições, ficamos enciumados e carregamos boa dose de prepotência e pretensões descabidas, sem qualquer sentido que as justifiquem.

A realidade atual do planeta é bem destacada demonstração da mediocridade interior que ainda caracteriza nossa condição humana. O Brasil, por sua vez, mostra o total desequilíbrio que fomos nos situar por força dessas imperfeições todas que nos faz discutir por bagatelas, perdendo-nos dos verdadeiros interesses do viver para aprender.

Desanimador? Não! Motivador, ao contrário.
A Sabedoria Divina nos fez falíveis. Criou seres ignorantes justamente para que aprendessem e amadurecessem pela experiência das vivências, nos enfrentamentos todos que todos os dias são verificáveis. Fazendo-nos falíveis, passíveis de equívocos variados, dominados e seduzidos por paixões e interesses diferentes, sabia desses salutares enfrentamentos e equívocos que nos permitiríamos por ignorância e principalmente por ILUSÃO. Sim, iludidos pelo poder, pela autoridade, pela ganância, por pretensa superioridade.

Mas aí está o grande “x” da questão. Justamente por sermos falíveis e tais equívocos nos encaminharem às colheitas da semeadura – mais cedo ou mais tarde –, somos levados igualmente às reavaliações de posturas e comportamentos, amadurecendo a consciência e elevando o sentimento.

Convenhamos! Em quantas ilusões nos apegamos! Quanta bobagem, quanta ilusão com valores perecíveis! Observemos as lutas de interesse do país. A que isso levará? A curto e médio prazo, a aflições que poderiam ser dispensadas. A longo prazo a experiência constatadora do quanto tempo perdemos com bagatelas.

A realidade é, pois, altamente motivadora aos aprendizados. Retirar dessas situações todas experiências reflexivas para sermos melhor. Melhorar o padrão moral, o comportamento, o palavreado, sublimar os interesses, desenvolver a fraternidade.

Estamos ainda muito iludidos pelo TER, esquecendo a principal finalidade de viver; o SER. O ser que ama, que respeita, que aprende, que reconhece sua pequenez e movimenta forças para viver solidário. Iludidos, ficamos nas infindáveis discussões, esquecendo o principal.

Verifique-se as esferas de poder. Retrato fiel do império do materialismo, total desconhecimento de nossa realidade imortal. Mas busque-se também a esfera individual, na própria consciência. Como estamos? O que estamos sentido? O que buscamos? Quais nossos verdadeiros interesses?

Há um sentido para tudo isso: é o Divino Convite do Supremo Doador da Vida para que assumamos nossa condição de dignidade, saindo da esfera dos falíveis para a envergadura dos que se esforçam para a libertação dessa autêntica prisão da ignorância. Fazer-nos falíveis é Sabedoria que convida à permanente busca da perfeição, ainda que relativa. Em outras palavras, para síntese conclusiva: educação de nós mesmos, especialmente no sentir e viver a dignidade de nossa condição de filhos de Deus! Preconceitos e ilusões só levam a doloridos tropeções... melhor a disciplina do aprendiz que supera gradativamente a condição de falíveis.

15/03/2017

Acordam os que dormem

Orson Peter Carrara – orsonpeter92@gmail.com

Valho-me de texto do notável amigo Rogério Coelho, de Muriaé (MG), em transcrições parciais e com mínimas adaptações, para oferecer ao leitor a preciosidade dessa reflexão sobre o processo sábio das aflições como instrumento depurativo para despertamento dos que dormem, indiferentes ou omissos, diante das graves responsabilidades de viver. Reflete o articulista amigo:
Bem-aventurados os que choram (aflitos), pois que serão consolados” - disse Jesus.
Nem todo aflito ou todo aquele que chora será consolado... As aflições são processos depurativos, que chegam ao homem, concitando-o à meditação em torno da problemática da existência, que não pode ser conduzida levianamente. Tua aflição mede o teu estado espiritual e representa o patrimônio de que dispões para recuperares a paz.

Dores de hoje, dívidas de ontem.  Aquele que ora se aflige, recupera-se das aflições que a outrem impôs, por isso "só na vida futura", se hoje bem se conduzir, será consolado.

Há, todavia, aflitos que se fazem afligentes, explodindo, em rebeldia, contra os fatores causais das suas necessidades evolutivas, não raro assumindo uma falsa posição de vítima e engalfinhando-se, nas disputas do desequilíbrio pelo trânsito, através do corredor da loucura por onde derrapam.
Há aflições que se fazem fardo de pesado ônus para aquele que da vida somente considera as vantagens utópicas, isto é, as transitórias alegrias decorrentes da ilusão.

Muitas aflições têm a medida que se lhes atribui aumentando-as ou valorizando-as, em face de uma atitude falsa ou decorrente da exigência de um mérito que em verdade não se possui...

Os aflitos a que se refere o Mestre são aqueles que da tribulação retiram o bom proveito; aqueles que encontram na dor um desafio para superarem-se a si mesmos; os que se abrasam na fé ardente e sobrepõem-se às conjunturas dolorosas; todos os que convertem as dificuldades e provações em experiências de sabedoria; os que sob o excruciar dos testemunhos demonstram a sua fé e perseverança nos ideais esposados, porfiando fiéis aos compromissos abraçados...

Os aflitos humildes e que se convertem em lições vivas de otimismo e de esperança  ̶  eis os que serão bem-aventurados, porque após as dívidas resgatadas, os labores realizados, os testemunhos confirmados, "serão consolados" pela bênção da consciência tranquila, no país da redenção total.
Tua aflição é o caminho da tua vitória sobre ti mesmo. Ela te dará a medida da tua fraqueza e a grandeza do amor e da sabedoria do Pai Criador.

Utiliza-te da sua metodologia para o mais breve triunfo que te cumpre alcançar.
Aquele que se arrepende de um mal, está aflito; aquele que se encoleriza, sofre aflição; quem persegue, padece agonia; quem inveja extremunha-se e chora; quem odeia, galvaniza-se sob o açodar da fúria e combure-se nos altos fornos do desequilíbrio que gera. Estes não serão, por enquanto, consolados.  Somente quando a consciência da dor os faça amar, submetendo-os à Divina Vontade, encontrarão na aflição a felicidade por que anelam.

A aflição está na Terra, por ser este um planeta de provas e dores, onde a felicidade ainda não se instalou, nem poderia fazê-lo por enquanto...
Concentra desse modo, as tuas aflições no Afligido em dívidas e entrega-te a Ele, seguindo-Lhe o exemplo, e, enquanto te encontres aflito, procura diminuir a aflição do teu próximo. Assim, fazendo, serás consolado, porque, conforme já sabemos, "as vicissitudes da vida derivam de uma causa e, pois que Deus é justo, justa há de ser essa causa". Sofrendo-as com resignação, superá-las-ás, encontrando a paz."                                                                      

08/03/2017

A Lei do Trabalho –Entrevistando um Juiz do Trabalho


Orson Peter Carrara – orsonpeter92@gmail.com
Natural de Araraquara, no interior paulista, onde também reside, ALAN CEZAR RUNHO é formado em Direito (1996) pela USP e Juiz do Trabalho desde 1998. Entrevistamo-lo sobre a legislação trabalhista e as Leis Divinas.
1 - Como conciliar a imperfeição das leis humanas, concernentes às leis trabalhistas e a sabedoria das Leis Divinas quanto ao trabalho?
As leis humanas existem porque o homem ainda não aprendeu amar. Quando praticarmos a lei do amor em toda sua essência, querendo para os outros o que queremos para nós mesmos, constataremos o quanto as leis humanas são supérfluas. Ao nos pautarmos pela ética do Cristo nos relacionamentos humanos, a imperfeição das leis humanas deixará de ser um obstáculo.
2 - Da legislação humana específica do trabalho, em sua opinião, quais aspectos mais progrediram de forma a se aproximarem dos objetivos da Providência Divina com relação ao bem dos seres humanos no planeta?
Ao longo dos anos, destaco como os maiores progressos da legislação trabalhista: 1) o aumento da proteção do trabalhador em relação à duração da jornada e às condições de higiene e segurança do trabalho, evitando a prematura degradação física e psíquica do ser humano; 2) a proibição contra qualquer tipo de discriminação por motivo de sexo, idade, cor, crença religiosa ou estado civil, evidenciando o conceito da fraternidade; e 3) recentemente, o reconhecimento da identidade de direitos do trabalhador doméstico, tido por alguns como o segundo estágio da Lei Áurea.
3 - O que nos falta ainda aperfeiçoar na legislação trabalhista humana para maior proximidade com as Leis Divinas?
Assim como a dor nos alerta quanto à necessidade de retomar o caminho das leis divinas, penso que a legislação ainda é carente de mecanismos eficazes de persuasão ao cumprimento das obrigações legais. Embora o arcabouço jurídico seja bastante robusto na previsão de direitos e garantias, o empenho Estatal para o seu respeito ainda é deficiente. Nesse estado de coisas, muitos se sentem tentados ao desrespeito a direitos fundamentais dos trabalhadores, aumentando as tensões e conflitos.
4 - Nos embates jurídicos trabalhistas, o que é mais expressivo? Por quê?
Infelizmente, a ganância e a incapacidade de exercer a alteridade, de colocar-se no lugar do outro na relação. De um lado, empregadores que escolhem descumprir obrigações básicas para auferirem maior lucro, apostando na impunidade; de outro, trabalhadores que vêm nas demandas judiciais uma chance de enriquecimento; de ambos os lados, representantes que esqueceram, ou não conheceram, o verdadeiro objetivo da Justiça e enxergam o processo apenas como uma fonte de renda. Isso acontece porque ainda somos materialistas e imediatistas. O orgulho ainda é traço marcante em nós e não compreendemos a lição do Cristo quando nos ensinou que a bem-aventurança está na brandura e na pacificidade.
5 - O egoísmo e o orgulho ainda têm sido grandes obstáculos nas conciliações trabalhistas? Um juiz consegue atenuar esses quadros?
Penso que já adiantei tal convicção nas perguntas anteriores e respondo afirmativamente. A postura materialista advinda do egoísmo e do orgulho é o maior entrave à conciliação. O juiz consegue atenuar esse quadro quando age com serenidade e domina a arte da persuasão, como Jesus no episódio da mulher adúltera. Não foi com o emprego de força ou argumentação sólida, tampouco com a exibição de seu título de autoridade que Jesus fez cessar a agressão àquela mulher, mas com a persuasão.
6 - Suas palavras finais
Que possamos compreender o trabalho como uma ferramenta de evolução moral, e não como um meio de acumulação de riquezas materiais, tampouco como uma punição, como na interpretação precipitada da alegoria bíblica.

02/03/2017

Não te ajudar a viver seria não te amar

Orson Peter Carrara – orsonpeter92@gmail.com

O título da presente abordagem é uma resposta. Ela foi dada diante da indagação sobre o amparo também nas questões materiais. Para situar o leitor, é oportuno reproduzir trecho parcial da indagação: “(...) mas gostaríeis de me dizer se essa proteção se estende também às coisas materiais da vida? “  A reposta é marcante: “Neste mundo, a vida material importa muito; não te ajudar a viver, seria não te amar”.

Há que se considerar sim, com ênfase, a importância da vida material face aos desafios de crescimento e aprendizado. Face à luta que a mesma apresenta, em vários sentidos, nada mais justo compreender que a assistência abranja também a vida material.

O ajudar a viver, como bem afirmado, é amar aquele a quem se dirige proteção. E isso naturalmente inclui as lutas materiais, de sobrevivência inclusive, óbvio.
Busque-se as lições imorredouras do Mestre da Humanidade e encontramos: Buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça e todas as coisas vos serão acrescentadas.

Pensemos na expressão todas as coisas, incluída no ensino imortal. Ali estão compreendidas as materiais e as espirituais. Embora ali constantes, estão disponíveis somente para os que buscam em primeiro lugar o reino de Deus. Os demais não estão deserdados, mas também não usufruem. A herança permanece intocável, pendente, todavia, da cláusula suspensiva ou condicionante do Buscai primeiro.

E aí entra o entendimento das expressões Reino de Deus e sua justiça e mesmo do Buscai primeiro. O que está contido nessas indicações? Como leitor entende esses parâmetros de orientações? Veja que aí cabem muitas reflexões e desdobramentos que deixamos ao estudo e pesquisa do leitor.

O que nos move é mesmo destacar o amparo que nunca falta, inclusive materialmente, mas embora para todos, pendentes e condicionantes também de nosso esforço em buscar primeiro o Reino de Deus. Fator que, quando existente, abre os caminhos do mérito e do amparo imediato e incondicional.

É justo. As pérolas celestiais não são lançadas a esmo pela Divindade, mas incrustadas com carinho, uma a uma, na tiara imortal dos que amam e têm fé em Deus.
Daí a afirmação: Não te ajudar a viver seria não te amar.
Essa resposta afirmação está em Obras Póstumas, capítulo terceiro da segunda parte, no item Meu guia espiritual, em comunicação de 09 de abril de 1856, e foi dada ao ilustre Codificador.

Agora convido o leitor pensar na sempre presente assistência, nunca faltante, nas diferentes situações da vida, onde o amparo é palpável, basta aguçarmos a sensibilidade e constatar com facilidade que esse fecundo amor está aí presente, nos ajudando viver.
Tais considerações, inclusive com pequenas transcrições parciais, aproveitamos do livro O Esplendor das Bem-Aventuranças, do amigo Mário Frigéri, da Editora Mundo Maior. Está no capítulo Filigranas de André Luiz, inclusive lembrado com O Caso Ester, citado no livro Missionários da Luz, capítulo 11 – Intercessão, que recomendamos aos leitores.


É que a presença do amor sempre age, sempre socorre, sempre ampara...

23/02/2017

Colunas vivas

Orson Peter Carrara
A lucidez e coerência de Emmanuel se faz presente em tudo que escreveu. Seus textos, sábios e objetivos, conclamam-nos diretamente ao entendimento de graves ou pequenas questões da vida humana e seus desafios. Seus romances densos, históricos, ou seus textos compactos em breves mensagens revelam bondade, sabedoria e estímulo ao bem, ao crescimento pessoal e coletivo. Foram milhares de páginas por Chico Xavier.
No último parágrafo da mensagem Mecanismos do Auxílio, ele afirma: Em qualquer plano do Universo, toda vez que desejarmos realmente o bem, é forçoso nos convertamos em colunas vivas do bem.
Analisemos com olhar abrangente:
  1. Em qualquer plano do Universo... isso é muito além das aparências, das circunstâncias, do tempo, época, relacionamento, atividades... quer dizer, em qualquer momento ou lugar.
  2. Toda vez que desejamos realmente o bem. Desejamos sempre o bem? Quando o desejamos? É real esse desejo do bem ou mascarado por interesses? E o que é o bem em nosso entendimento? Já pensamos nisso? E como interpretamos o desejo do bem?
  3. Converter-se em colunas vivas do bem – Note-se o processo de transformação interior, edificando fortaleza que age em favor do bem geral. Na imagem simbólica de colunas vivas, o convite do sal da terra que faz a diferença na convivência social ou familiar. Coluna lembra sustentáculo, alicerce. Somos daqueles que sustentam a alimentam a vida ou ainda estagiamos como pedintes?
Referida mensagem foi publicada no Anuário Espírita de 1972 (o médium enviou de 1964 – quando surgiu a publicação por sugestão dele mesmo – até 2002, quando de sua desencarnação, mensagens de variados benfeitores espirituais para serem publicadas no conhecido Anuário, que continua sua caminhada e já tem disponível também a edição de 2017). Essas mensagens, nessa sequência de anos, estão reunidas agora em 89 capítulos que resultou no novo livro Chico Xavier e suas mensagens no Anuário Espírita. A mensagem ora comentada está no capítulo 65.
O fato marcante, porém, é a solidez das reflexões do citado benfeitor, sempre com sabedoria, com bondade, com amor autêntico recheado de firmeza que indica caminhos e orienta.
É nessas mensagens compactas que encontramos em poucas palavras e em parágrafos curtos ensinos de grande valor que desdobrar em valiosos caminhos de orientação. Aliás, todas as mensagens remetidas pelo médium para publicação, de rápidos parágrafos, trazem esse perfil.
E sobre as colunas vivas, em comparação magnífica, sejamos nós as fortalezas da determinação, da fé operante, para atenuar as agruras do mundo, se realmente desejamos o bem em torno de todos nós.

16/02/2017

Para não espanar



Orson Peter Carrara

Desemprego galopante, surpreendente. Crises sociais intensas. Preocupações e angústias que se multiplicam. Desafiantes situações surgem diariamente para indivíduos, empresas, instituições, famílias. Tanto na área do relacionamento, dos questionamentos interiores, na empregabilidade, na saúde, na violência ou na indiferença, tudo convidando a rever posturas e posicionamentos, estimulando novas buscas, convidado à renovação e derrubando velhos e ultrapassados paradigmas. 
Por mais paradoxal que possa parecer, são situações necessárias. Justamente para nos despertar dessa letargia da indiferença ou do comodismo, da incredulidade.

Causas? Não é difícil indicar. O materialismo, ou a crença no nada, a busca desenfreada do prazer, o valorizar da ganância, do poder, do dinheiro, em detrimento dos valores essenciais.
Diz-nos, todavia, o poema de Cruz e Souza (1861-1898), poeta catarinense de emotividade delicada: (em Parnaso de Além-Túmulo, ed. FEB, página 385 da 19ª edição, de abril/16)

Aos torturados
Torturados da vida, um passo adiante;
Nos desertos dos áridos caminhos,
Abandonados, trêmulos, sozinhos,
Infelizes na dor a cada instante

Sobre a luz que vos guia, bruxuleante,
E além dos trilhos de ásperos espinhos,
Fulgem no Além os deslumbrantes ninhos,
Mundos de amor no claro azul distante...

Chorai! Que a imensidade inteira chora
Sonhando a mesma luz e a mesma aurora
Que idealizais chorando nas algemas!

Vibrai no mesmo anseio em que palpita
A alma universal, sonhando, aflita,
As perfeições eternas e supremas!

É que a vida é muito mais que os áridos caminhos da vida humana. Aqui são degraus de aprendizado, abrindo caminho para felicidade concreta que alcançaremos. Mas há o preço do aprendizado e do amadurecimento. Para não espanarmos, pois, na tristeza ou no descontrole, a diretriz é Prosseguir! Sempre confiantes, determinados, ativos e especialmente comprometidos com o bem geral e, claro, com a poderosa ferramenta da fé. Da fé que raciocina, que pensa, que analisa, que observa. Não aquela que vacila diante dos obstáculos.

Apertam as situações? Pressionam as adversidades? Bom sinal! É clara a indicação que estamos sendo convocados a sair do comodismo e da indiferença, da descrença e do desamor, convidados claramente agora à vivência da fraternidade. Exatamente aquela que nos ensina a amar.  Se não formos espontâneos na busca dessa singular oportunidade, vem a dor cumprir seu papel e despertar nossa insensibilidade. Melhor, pois, agir com inteligência e desenvolvermos em nós mesmos os mecanismos do amor.

Esperam-nos panoramas iluminados de amor e felicidade, no futuro. Mas temos que construir uma escada e subir seus degraus. Daí a importância vital da iniciativa!

Inspiremo-nos no bem geral, deixemo-nos contagiar pela vontade ser útil, dispensemos o egoísmo e a vaidade, esqueçamos a ganância, excluamos o orgulho que se fere tão fácil e olhemo-nos com os olhos repletos de compreensão descobrindo os intensos valores que todos possuímos, passaportes que nos levarão às moradas de felicidade que nos aguardam de portas abertas.

08/02/2017

Como Kardec recomendou

Orson Peter Carrara
Como se sabe, Allan Kardec, na Codificação da Doutrina Espírita, procedeu com espírito investigativo, utilizando método científico de observação, comparação, para expor suas conclusões e os resultados com base na lógica, no bom senso, e na universalidade dos ensinos, isto é, na coerência e concordância das informações recebidas em diversos lugares, simultaneamente por médiuns desconhecidos entre si.  Isto garantiu a solidez das revelações e sempre expondo tudo à luz do raciocínio.
Esse sábio critério utilizado pelo Codificador, que igualmente afirmou que quando alguma informação contrariasse as conquistas da ciência, deveríamos abandonar esse ponto e ficar com a ciência, ao mesmo tempo que deveremos incorporar ao conhecimento as mesmas conquistas científicas, é insuperável, pois que a ciência, ao longo do tempo, somente tem confirmado o que a Doutrina Espírita contém em seus fundamentos.
Eis que o pesquisador Dermeval Carinhana Jr., de Campinas, integrante da ADE – Associação dos Divulgadores do Espiritismo e do portal www.radioespirita.org.br , fez como recomendou Kardec. No belo livro Confrontado a Razão, assinado por Cairbar Schutel e atualmente esgotado na editora, na psicografia de Alaor Borges Jr., Carinhana comentou capítulo por capítulo (são capítulos bem compactos no conhecido estilo daquele autor que, quando encarnado, publicou obras de alto nível doutrinário), analisando o conteúdo psicografado e formando uma obra de referência para estudo e pesquisa do Espiritismo.
Buscando na fonte da Codificação e da Revista Espírita, nos argumentos apresentados para comentar os capítulos psicografados, Dermeval faz um autêntico curso de Espiritismo, em seu caráter doutrinário de buscar as causas de determinadas afirmações e sua coerência com a realidade do espírito imortal, nas considerações apresentadas pelo espírito autor.
Ficou mesmo uma obra empolgante.  Toda a grandeza dos textos do Codificador, tanto na visão do espírito autor, como na análise doutrinária de Carinhana, formou uma obra de referência, pelas indicações, pelas pequenas transcrições que embasam os argumentos e comentários, como igualmente pela oportunidade de compreender ainda mais os fundamentos doutrinários e os critérios do Codificador. Isso tudo sem falar, é lógico, na consistência do texto psicografado que forma o livro. Esperamos que breve esteja novamente disponível.

01/02/2017

Uso da Escala Espírita

Orson Peter Carrara – orsonpeter92@gmail.com

Sabemos todos, pelo estudo da Escala Espírita, apresentada por Allan Kardec em O Livro dos Espíritos (questão 100 e seguintes), que os Espíritos pertencem a diferentes estágios de moralidade e intelecto, estágios esses alcançados pelo próprio esforço e pela força do progresso, que é lei para todos. O entendimento prévio da importante classificação apresentada pelo Codificador evita possíveis decepções quanto às manifestações, fenômenos e pseudo-orientações apresentadas no intercâmbio com os encarnados. Uma vez sabedores dessas diferenças, estaremos prevenidos contra tentativas de mistificação e fraude por eles arquitetadas. E igualmente estaremos demonstrando um bom nível de discernimento na recepção de orientações que surjam através de médiuns.
Na Revista Espírita1, de julho de 1859, no Pronunciamento do Encerramento do ano social 1858-1859, feito por Kardec na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, dentre os vários assuntos focados, destacamos trecho de máxima importância para nossas reflexões: “(...) saibam, pois, que tomamos toda opinião manifestada por um Espírito por uma opinião individual; que não a aceitamos senão depois de tê-la submetido ao controle da lógica e dos meios de investigação que a própria ciência Espírita nos fornece, meios que todos vós conheceis. (...)”.
Observemos a curiosa observação de Kardec: “controle da lógica e dos meios de investigação que a própria ciência Espírita nos fornece”. A lógica sugere e solicita que tudo que venhamos a receber dos Espíritos, por via mediúnica, seja submetido à avaliação do raciocínio, do bom senso. Se escapar deles, que seja rejeitado.
Como orienta Erasto: “(...) Na dúvida, abstém-te, diz um dos vossos velhos provérbios. Não admitais, portanto, senão o que seja, aos vossos olhos, de manifesta evidência. Desde que uma opinião nova venha a ser expendida, por pouco que vos pareça duvidosa, fazei-a passar pelo crisol da razão e da lógica e rejeitai desassombradamente o que a razão e o bom senso reprovarem. Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.” (...) (capítulo XX, item 230 de O Livro dos Médiuns).
Sob o ponto de vista da investigação, eis aí um critério que qualquer estudioso Espírita pode usar com tranqüilidade: basta observar atentamente o que ocorre à nossa volta ou que venha dos Espíritos. A investigação, sugerida pela Ciência Espírita, é exatamente submeter todos os fenômenos e ocorrências mediúnicas (e até mesmo anímicas2, acrescentamos) ao critério dos fundamentos e princípios apresentados pelo Espiritismo. Estão coerentes? Ferem os fundamentos doutrinários?  Sem esquecer que, simultaneamente, podemos também efetuar pesquisa, através de anotações, acompanhamentos e métodos de experimentação.
São, pois, controles bem seguros: uso da  lógica e investigação dos fatos. Estes são a comprovação daquilo que se pesquisa ou se busca. A lógica, por sua vez, coloca frente a frente o fato com a referência que o raciocínio oferece, sempre como fruto da observação, da experiência e da própria história e fundamentação dos reais fenômenos das manifestações dos Espíritos.
Apoiados nestes dois critérios, não há o que temer, desde que nos desarmemos da negação simplesmente por negação, das implicâncias e preferências de ordem pessoal e nos coloquemos no neutro terreno de quem quer conhecer e aprender, descobrir e investigar pelo prazer de aprimorar o conhecimento.
É oportuno recordar que Cairbar Schutel – fundador do jornal O Clarim e da Revista Internacional de Espiritismo –, no livro Médiuns e Mediunidades3, justamente estudando a questão mediúnica e com embasamento em O Livro dos Médiuns, traz importante esclarecimento.
Na Exposição Preliminar, Cairbar declara: “(...) em vez de ser uma explanação, com larga dissertação de O Livro dos Médiuns, esta obra é dele um resumo. (...) O Espiritismo, exposto aos leitores em síntese, tal como o fazemos, proporciona duas vantagens bem nítidas: primeira, a de dar àqueles que nos lêem a expressão nítida, clara, racional da sua doutrina, que abrange as esferas religiosa, filosófica e científica; segunda, a de guiá-los a mais altos empreendimentos, infundindo-lhes nas almas o desejo de aprofundar a Revelação nova, que veio iniciar uma nova era no progresso dos povos. Tal é nosso intuito ao lançar à publicidade este livrinho, em cujas páginas, estamos certos, os leitores encontrarão alguma coisa de proveito (...)”.
É o que nos ensina também a atenta observação nos estudos com a Escala Espírita, indicando os diferentes estágios de progresso dos Espíritos, progresso esse que pode ser estimulado de forma abrangente com a difusão do Espiritismo.

1 – 2ª edição (1995) do IDE-Araras, tradução de Salvador Gentille. O destaque em negrito é do autor da presente abordagem.
2 – Vide capítulo VI da segunda parte, na citada obra.
3 – Edição da Casa Editora O Clarim, de Matão (SP).

26/01/2017

Penitenciárias

Por Orson Peter Carrara
Coincidindo com a crise prisional no país, encontro na sabedoria de Amália Domingo Soler, no fabuloso livro A Luz do Caminho, que está esgotado e logo estará reeditado, o notável capítulo A Eterna Justiça, que parece foi escrito para a atualidade do país, embora escrito há mais de um século. Faço aqui pequenas transcrições parciais do citado capítulo:
  1. Você então acredita que com suas prisões se consegue a cura do criminoso? É um equívoco gravíssimo, porque, como regra geral, seus condenados são homens quando entram nos calabouços, mas ali se convertem em feras indomáveis (...);
  2. (...) se dobram o corpo sob o poder do chicote, não dobram seu Espírito, pois continuamente se está vendo que os crimes mais terríveis, que os atentados mais cruéis, que o ódio mais concentrado, quem os sente ou os comete?
  3. Eis como funciona a corrigenda de um criminoso de ontem, e não é porque seja um monstro da iniquidade, mas porque matou, sem estudar a natureza do seu crime, as leis o condenaram a alguns anos de prisão.
  4. (...) entrou na prisão aturdido, surpreso e assustado por sua própria obra; entrou como aprendiz, como se costuma dizer, na oficina dos crimes e saiu mestre consumado, o que prova que seus castigos violentos produzem um resultado completamente negativo, o que não ocorreria se os criminosos fossem tratados como se tratam os enfermos.
  5. (...) embora falte muito para que os enfermos pobres sejam tratados nos hospitais com as considerações e atenções devidas, não os golpeiam e não os submetem a continuados jejuns para curar suas doenças; dão-lhes medicamentos, alimentos, fazem operações que, conquanto dolorosas, têm por objetivo separar o membro gangrenado do resto do corpo, para que este se conserve saudável.
  6. Ora, se assim tratam as enfermidades do organismo, com relativo acerto e com o sadio desejo de conseguir a cura completa, por que não fazem o mesmo com as enfermidades da alma?
  7. Que vocês pensam que são os criminosos? (...) cada um deles apresenta distinta enfermidade (...) quanta diferença existe na origem da criminalidade!
  8. Curar a doença por meio de um tratamento geral é como se num hospital cheio de enfermos, cada um com sua doença particular, dessem a todos o mesmo medicamento, pretendendo que se curasse com o mesmo remédio o tuberculoso incurável e aquele que somente tivesse uma leve febre.
  9. Dia chegará (...) em que suas horríveis prisões serão substituídas por casas de saúde, onde os criminosos serão julgados, não por juízes, mas por sábios psiquiatras, e cada ser que cometa um delito será um livro aberto no qual o médico encarregado de sua cura lerá constantemente.
  10. A doçura é o modo de corrigir os culpados; (...) os crimes diminuirão à medida que os criminosos sejam considerados doentes em estado gravíssimo que necessitam de especiais cuidados e múltiplas atenções, e de alguém que os ensine a trabalhar e, o que é mais difícil, a amar o trabalho (...)
  11. Que diferentes resultados obterá o sistema penitenciário de que se fará uso nos séculos vindouros!
Nossas autoridades precisam conhecer uma sábia orientação dessa natureza. O império do materialismo, da indiferença e o predomínio do egoísmo formam esse quadro complexo que estamos enfrentando no país. Daí a imperiosa necessidade da expansão da visão imortalista da vida, que não se resume a algumas décadas nesse corpo frágil que utilizamos.
Concluo com trecho no final do capítulo: “(...) eduquem-nos (...) para que comecem a ser úteis a seus semelhantes, porque toda água que se dá aos sedentos, encontra-la-ão depois em gotas de precioso bálsamo que lhes servirá mais tarde de alimento e vida (...)”.

Não é o grande desafio da nação? Até onde vamos com nossa indiferença? Multiplicam-se os condenados e penitenciárias, esquecidas as autoridades do poder da educação (e sua estrutura, claro!) Que, curiosamente, começa em casa, antes do berço, no aconchego familiar, no exemplo dos pais e no Evangelho do Cristo, único capaz de formar autênticos homens de bem.

18/01/2017

Outra coragem

Quanto mais leio, estudo e pesquiso o rico e incomparável conteúdo oferecido pela Doutrina Espírita, mais me alarga o horizonte de entendimento da outra coragem e disposição que precisamos desenvolver em nós mesmos para a harmonia interior que buscamos, com vistas às finalidades de viver e seus altos objetivos fixados pela grandeza de Deus e suas soberanas leis.
Em todos os tempos, mártires e lideranças dos vários desafios que a vida apresenta no complexo relacionamento humano, entre os seres de uma mesma família ou nos intercâmbios entre as diversificadas culturas dos países, tiveram iniciativa, disposição e coragem no enfrentamento dos preconceitos, abusos de toda ordem (considere-se aqui de toda ordem mesmo, desde os de poder, da escravidão, da prepotência ou da ganância, da vaidade e tantos outros), da corrupção, enfermidades, das invenções, guerras, e nas diversas situações construídas pelo egoísmo que ainda nos domina o comportamento.

Por força dessa situação, há que surgir aqueles que colocam “cara para bater” nesses enfrentamentos advindos da coragem honesta, sincera, que muda os paradigmas da dominação ainda presentes no planeta.
Todavia, os grandes clássicos da literatura espírita nos fazem pensar na outra coragem, sempre esquecida e tão necessária para alterar completamente os doloridos quadros vividos no planeta.
Trata-se do enfrentamento de nós mesmos, nas imperfeições que todos carregamos. Isso significa, no entender da notável Amália Domingo Soler – que foi orientada em toda sua obra pela grandeza e nobreza do Espírito Germano –, melhorar nossos hábitos e costumes (depois de prévio e consciente exame de nossos próprios atos, bons e maus), estabelecendo um regime progressivo em harmonia com as aspirações do Espírito humano, opondo-se à propagação do mal e propugnando pela desinteressada prática do bem, segundo suas próprias palavras, aqui adaptadas em transcrição parcial e constantes do capítulo VIII – Conhecer-te a ti mesmo, do livro A luz do caminho.
Ela afirma no início do capítulo: “Cada um é o redentor de si mesmo (...) e para chegar a ser um verdadeiro apóstolo do progresso é preciso antes de tudo redimir-se (...)”. E acrescenta com sabedoria: “(...) Tão importante é ao homem aprender a conhecer-se a si mesmo como saber porque está na Terra, de onde vem, para onde vai (...)”.
O que mais me chamou atenção, todavia, está na seguinte afirmação, razão da presente abordagem: “(...) Se para progredir intelectualmente foi preciso lutar com a coragem dos heróis e dos mártires, há de ser menos para progredir moralmente? (...)”.
Na reflexão dessas duas linhas estão incluídas todas as lutas para vencer preconceitos e dominações de todo tipo, gerando mártires em todos os tempos e fazendo a humanidade avançar no entendimento de nossa igualdade e no respeito que se deve ter com a liberdade.
Pois a coragem é a mesma. É a coragem da iniciativa, da decisão, do planejamento, da perseverança, só que para enfrentamento de nossas próprias imperfeições. É a luta pela conquista das virtudes, é a dominação do orgulho, é a dispensa do egoísmo, é a renúncia aos pontos de vistas próprios em favor da paz coletiva, é o reconhecimento do valor alheio, em detrimento da vaidade e arrogância que ainda nos caracteriza. É, enfim, silenciar a agressividade, raivas, rancores, e atender à consciência, amar o dever.
Por isso a clássica pondera: “(...) Ao homem do mundo falta descobrir um simples, mas profundo segredo. (...) É aprender a conhecer-se a si mesmo. (...)”
A abordagem é notável e não cabe num único artigo. Há muito mais no precioso capítulo, mas deixamos um dos trechos para concluir: “(...) Todos nós, sem exceção, estamos doentes do espírito (...) Perguntemo-nos sempre: Que falta cometi hoje? (...)”.
E pondera que quanto mais afundados estamos nos vícios dos maus comportamentos (aí incluídos também o melindre, o orgulho próprio ferido e a teimosia rebelde), menos enxergamos o ridículo de nossos próprios comportamentos perante a finalidade maior de progresso oferecido pela vida.
Portanto, essa é a outra coragem: do enfrentamento de nós mesmos, virtude que atrairá o amparo e presença dos benfeitores espirituais, pois é exatamente a nova postura que nos aproxima deles para nossa harmonia interior.