17/05/2017

Equipe diferenciada

Orson Peter Carrara


Ponderemos, com a lógica e o bom senso como instrumentos de análise, sobre a vinda de Jesus ao planeta e sua equipe de colaboradores, à época. Reflitamos sobre as seguintes questões:
a) Os doze apóstolos que o acompanharam foram ou não preparados antes de virem ao planeta? Estavam na equipe antes, com Jesus, ou foram apanhados de surpresa durante o apostolado iniciado pelo Mestre? 
b) Seria coerente definirmos que tais acontecimentos, o da escolha dos discípulos, foi obra do improviso, do acaso, ou de meras circunstâncias?
c) Sem menosprezo pela função de pescador, à época, podemos afirmar que tais espíritos eram mesmo rudes pescadores?
Breve leitura às questões acima propostas mostram claramente que a equipe do Cristo realmente não poderia ter sido fruto do improviso. Igualmente não iniciaram o contato e o trabalho com Jesus apenas a partir do momento em que foram convocados. 


Na verdade estavam pescadores. Não o eram. São almas, já à época, de elevado grau de adiantamento, totalmente comprometidos com as tarefas de expansão da Boa Nova. Ainda que Judas tenha se equivocado e outras fraquezas humanas tenham aparecido de maneira clara entre outros dos discípulos, como a negação de Pedro entre outros exemplos, tais integrantes que compuseram a equipe que acompanhou fisicamente Jesus ao planeta, embora não estivessem no mesmo nível de Jesus, já participavam de relativa sintonia com seus propósitos e o próprio programa por Ele trazido ao planeta.

São questões simples, mas que precisam ser lembradas. E isto tudo sem considerar a outra equipe invisível aos olhos humanos que o assessorava. Era preciso para desempenho da importante tarefa que espíritos de elevado grau evolutivo, embora ainda não perfeitos, se apresentassem ao lado de Jesus, apesar da aparência humana rude e fraquezas próprias ainda se fizessem presentes, para que a tarefa estivesse completa e atingisse seu objetivo.

Apesar da aparência rude, numa época de imensas dificuldades e limitações materiais, formavam eles diferenciada equipe, bem diferente das atuais equipes que integramos no planeta com objetivos tão variados, tão limitados e ao mesmo tempo tão medíocres em inúmeros casos, gerando crises continuadas que se originam no egoísmo e seus desdobramentos.

É preciso sempre raciocinar em todos os temas. É com esses questionamentos que aprendemos a estudar e entender a gigantesca tarefa de Jesus. Tarefa na qual também podemos nos engajar pelo esforço diário da renovação e do empenho de também sermos um trabalhador de sua bendita Seara, ainda que inexpressivos, localizados ou pequeninos... 

Felizmente, porém, há outras equipes anônimas, perseverantes, que sem qualquer alarde, promovem o progresso e garantem o processo natural da vida social, em todos os segmentos. 

11/05/2017

Tarefa dos enxovais

Orson Peter Carrara
Voluntários anônimos ou vinculados a grupos de diferentes denominações religiosas dedicam-se ao amparo de gestantes carentes, com a distribuição de enxovais para os bebês que vão chegar; em alguns casos, inclusive, com cursos de orientação nos cuidados com a gestação e com os futuros filhos. Com arrecadação e doações provenientes de diversas fontes, para a aquisição de tais enxovais, o fato é que há décadas o importante trabalho existe em muitas cidades e grupos, sem falar das iniciativas individuais, com a confecção de roupinhas, sapatinhos e outros acessórios de atendimento aos recém-nascidos.
 Sobre o tema, trago aos leitores diminuta história de um ângulo que talvez o leitor não se tenha dado conta:


A pobre mulher, já com oito filhos numa verdadeira escada cronológica, aguardava o nono rebento e procurou ajuda para receber a doação de um enxoval para o bebê. Vivendo com muita dificuldade familiar, muito magra e quase passando fome, o marido estava desempregado e entregou-se à bebida, chegando violento em casa todo dia, atingindo a esposa e os filhos. Ela não reclamava do marido, dizia que ele era bom e tentava afogar a angústia do desemprego na bebida. Feito o cadastro e avaliação, ela recebeu a farta sacola com as roupinhas. Foi de surpresa em surpresa, chegando às lágrimas, com a qualidade, quantidade e beleza das peças acumuladas e que lhe eram doadas. Chorou de intensa emoção e comoveu o marido da mesma forma que, percebendo receber tanta generosidade de pessoas que nem conhecia – fez inúmeras perguntas sem entender o fato de receber tantos mimos e acessórios extras em meio às bonitas e cheirosas roupinhas para o filho que chegaria –, que tomou uma decisão: largou a bebida e mudou o rumo da própria vida. Logo conseguiu um emprego e a vida do casal, embora difícil, voltou à normalidade.

A pequena história revela algo extraordinário. Não são as doações em si, mas o amor com que foram
planejadas, organizadas e mesmo entregues. Usei o exemplo dos enxovais, mas poderia falar sobre a distribuição de sopa ou atendimento a mendigos, idosos, famílias inteiras, ou os atendimentos médicos e odontológicos, entre outros, de voluntários abnegados na área de saúde ou da educação, como a alfabetização, etc., entre outras notáveis iniciativas humanitárias em favor da população mais carente.
É que todo gesto ou iniciativa impregnada de amor, do desejo de ajudar, de aliviar a agrura do semelhante, igualmente impregna o material usado e beneficia diretamente aqueles que recebem os benefícios, muito além do próprio objeto ou acessórios doados e recebidos.

A história está no último capítulo do extraordinário livro Diversidade dos Carismas, de Hermínio Miranda, que desejo recomendar ao leitor. O capítulo tem o nome de Os carismas e a caridade, que inspirou meu recente livro: A Tarefa dos Enxovais.

04/05/2017

Repelem a prece, estão endurecidos

– Orson Peter Carrara
Afirma Kardec no item 75 do capítulo 28 de O Evangelho segundo o Espiritismo, que os francamente maus e os hipócritas podem ser enquadrados em personalidades perversas. Estão ainda iludidas no desejo de posse, de domínio das consciências, e também dominadas pelo vil sentimento do egoísmo que só pensa em si, desconsiderando os interesses comuns e coletivos.
O arrependimento ainda não os tocou, se comprazem no espalhar de dores, violências e preocupações para os outros, estão ainda insensíveis ao mal que causam e fazem-no sem qualquer preocupação de lesão na tranquilidade ou no patrimônio alheio. E após a morte, por vingança do sofrimento que experimentam, ou dos ódios alimentados, perseguem aqueles que odiavam ou outros que lhes abrem espaços, seja por obsessão ou por outra influência qualquer.
Os primeiros, os francamente maus, são mais fáceis de se reconduzir ao bem do que os segundos, os hipócritas. Se conseguirmos despertá-los dos equívocos a que se entregam. Fazem o mal mais por instinto do que por cálculo e não procuram se fazer passar por melhores do que são. Há neles um germe latente que é preciso fazer eclodir com a nossa perseverança, o desejo do bem e a confiança em Deus.
Já os hipócritas são muito inteligentes, mas são insensíveis; nada os toca, simulam todos os bons sentimentos para captar confiança, e ficam felizes quando encontram tolos que os aceitam como sérios e bons e onde podem governar à vontade. São perigosos porque agem nos bastidores e normalmente deles não se desconfia, a não ser depois que são descobertos, o que normalmente leva um tempo, já que sabem simular com mestria.
Tais sentimentos e posturas, todavia, fazem parte ainda de nosso estágio e muitos de nós nos enquadramos muitas vezes em comportamentos perversos, seja na hipocrisia ou na maldade, ainda que sem premeditação.
Teremos sempre que retomar os caminhos da dignidade, da honestidade, da bondade plena!
O tempo fará isso.
Mesmo assim, cabe-nos orar em favor dessas mentalidades endurecidas (seja na hipocrisia ou na maldade), ajudando-os a se libertarem dessas potentes amarras bem próprias dos equívocos a que se permitiram.
Tais considerações extraímos do texto Pelos espíritos endurecidos, capítulo XXVIII de O Evangelho segundo o Espiritismo, com adaptações e pequenas transcrições parciais para o presente trabalho. Embora no capítulo em referência, o Codificador orienta sobre preces em favor daqueles que não estão mais encarnados, o raciocínio cabe, como pode perceber o leitor, também para nós os encarnados, onde também encontramos hipócritas e maldosos, onde as preces serão de grande valor e alcance para despertar dessas almas adormecidas nas ilusões que bem nos prendem o sentimento e o raciocínio...

26/04/2017

Veja A CABANA

Orson Peter Carrara

Não sei se quando o leitor ler essa abordagem, haverá possibilidade de ainda ver o filme A CABANA, porque ignoro se há sala de cinema com essa exibição próxima do leitor. Mas não posso deixar de trazer esse estímulo, mesmo que seja visto depois pelo youtube ou pelo netflix.

O fato é que além da emoção própria das situações apresentadas pela produção, destaque-se a profunda reflexão filosófica trazida pela história. De inspiração religiosa e, claro, com as adaptações todas, próprias para uma filme que aborda um tema que somente a reflexão isenta de preconceitos ou prevenções pode produzir.

Com as fantasias próprias e mesmo as perfeitas metáforas com comparações bem construídas para tornar possível a transmissão da essência pretendida, o texto empolga pela lógica e bom senso aplicado nos diálogos entre os personagens.

Para quem está acostumado a estudar e especialmente conhece as grandezas do conhecimento espírita – que pode ser aplicado com facilidade para acompanhar os raciocínios – é uma delícia acompanhar o desenrolar da história. Deliciei-me às lágrimas nos raciocínios do personagem com o outro personagem representante da Sabedoria, que construiu expressivo diálogo sobre as noções da Justiça Divina e o Amor de Deus para com seus filhos.
Para quem está acostumado com o capítulo II – Deus – do livro A Gênese, de Allan Kardec, obra integrante da Codificação Espírita, de pouco mais de uma dezena de páginas (o capítulo específico), é sensacional pensar junto com o personagem citado e que transmitia as reflexões. Para quem ainda não teve a curiosidade didática de pesquisar o citado capítulo, eis uma excelente oportunidade de estudo.
Dê-se essa chance, vá ver o filme. Para raciocinar e refletir junto com os personagens da história. É impossível não fazer paralelos com o capítulo citado de A Gênese, e ao mesmo tempo, buscar as lúcidas páginas de O Céu e o Inferno (outra obra de Allan Kardec, integrante também da Codificação Espírita), para entregar-se ao estudo dos capítulos todos da primeira parte da obra, especialmente buscando o extraordinário documento Código Penal da Vida Futura. Abstenho-me de acrescentar comentários, mas quero motivar o leitor a buscar a obra.
Fato concreto, todavia, é que o filme trabalha as feridas da alma, como a mágoa e a ausência de perdão, ou a falta de fé e todos os seus desdobramentos. Mas, como não poderia deixar de ser, leva à construção da fé, com raciocínios lógicos, bem embasados e muito bem construídos, fazendo do filme uma produção daquelas em que a gente diz: “Gostei demais!”. Foi minha sensação e espontânea frase. Principalmente pelas profundas reflexões filosóficas e para quem está habituado a pensar utilizando-se da grandeza do Espiritismo, foi um “prato cheio”!
Abstenho-me das informações técnicas do filme, como sinopse, diretor, atores, etc. Isso é facilmente encontrável na net. Objetivo mesmo foi estimular o leitor: Vá ver!

18/04/2017

Da liberdade do 21 de abril

– Orson Peter Carrara

A vida permitiu-nos renascer no Brasil, a querida Pátria que nos acolhe. A história do país, na colonização, nos embates para a construção da democracia e mesmo nos gigantescos desafios da atualidade – onde se incluem a violência e o tráfico, o contraste entre os interesses de variadas ordens e a corrupção, entre outros itens dispensáveis de serem citados –, também apresenta os benefícios de um povo aberto, feliz, descontraído, ardente na fé e na disposição. 

É nosso querido Brasil, gigantesco em proporções geográficas e na diversidade que se apresenta em todos os aspectos! Bendita pátria! 
      
Por outro lado, o país acolheu a Doutrina Espírita como nenhum o fez. Das sementes germinadas em solo francês, foi aqui que a grande árvore do conhecimento se fez gigante como o próprio país continental. E nós temos a felicidade de conhecer essa Doutrina maravilhosa que inspira ações de caridade – em toda a extensão da palavra –, convivência fraterna e amiga por toda parte. Apesar das dificuldades e limitações humanas que são nossas, individuais e coletivas, ele, o Espiritismo, espalhou e espalha seus frutos pelas mentes e corações que o buscam ou são beneficiados por sua imensa luz.

Estamos no mesmo país que recebeu o cognome de Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, justa e coerente adjetivação para um povo ameno, solidário, apesar das lutas próprias de nossa condição humana. É aqui que as variadas expressões religiosas se manifestam para conduzir mentes e corações; é também nessa terra querida que nasceram ou renasceram almas que conhecemos sob os abençoados nomes de Irmã Dulce, Zilda Arns, Chico Xavier, Divaldo Franco, Dr. March, Dr. Bezerra de Menezes, entre tantos outros ilustres filhos que lhe dignificam o nome, sendo impossível citar todos e mesmo especificá-los por área, tamanha a variedade e quantidade de benfeitores que aqui vieram e ainda aqui vivem.

O dia 21 de abril lembra liberdade, desde os tempos escolares. Isso lembra responsabilidade, comprometimento, ética. Afinal, temos um compromisso com o país, com a coletividade brasileira. Qualquer cidadão está comprometido com a segurança, com os valores do país, com a obrigação moral da retidão e da gratidão, que se estendem por ações em favor do bem comum. É o dever! Não apenas um dever cívico, mas o dever moral para conosco mesmo e para com o próximo, como indica o Espírito Lázaro em O Evangelho Segundo o Espiritismo. Aliás, lembrando a Codificação Espírita, há que se ater às Leis Divinas, didaticamente apresentadas pelo Codificador em O Livro dos Espíritos. Leis que baseiam-se no amor, diga-se de passagem, mas igualmente são justas e misericordiosas.

Por tudo isso, a reflexão sobre nosso papel de brasileiros perante a Pátria Brasileira inclui-se igualmente no dever, ainda que apenas por gratidão pelo país que nos acolhe, garantindo-nos a paz desse foco irradiador de trabalho e fé que é o Brasil. Tamanho compromisso dispensa corrupção, egoísmo e tolas vaidades. Pede-nos, isso sim, trabalho e dignidade, exatamente pelo alto compromisso que todos temos com a vida e seu significado.

Repare o leitor atento que, quando ouvimos o Hino Nacional, a emoção nos envolve completamente. É o sentimento de compromisso com a missão da Pátria que integramos. O renascimento no país não é obra do acaso. Indica comprometimento e programação sabiamente elaborada. Saibamos respeitar e cumprir o que antes prometemos.

O Brasil tem grande papel a exercer junto à Humanidade. Filhos dignos, espíritos preparados e nobres estão sempre presentes como autênticos faróis a conduzir a coletividade. Sejamos daqueles que honram nossa condição humana e brasileira! Exemplos não faltam.

Por gratidão, ao menos, ao querido e grandioso Brasil! Lembremo-nos: o planeta construído por Jesus teve na mente e planejamento do Mestre da Humanidade a inclusão desse país incomparável, onde germinam as doces brisas do Evangelho.

Seria bom nesse momento de imenso desafio no país, que ouvíssemos novamente letra e música dos fabulosos Hinos da Independência ou da Proclamação da República, para nos deixarmos tocar pela emoção de ser brasileiro.

12/04/2017

Paradigmas e Preconceitos

Orson Peter Carrara ↔ orsonpeter92@gmail.com

Uma frase atribuída a Albert Einstein agiganta um dos maiores desafios da evolução humana: o preconceito. A frase é: "é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito". O preconceito, segundo o dicionário, é conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados; opinião desfavorável, concebido antecipadamente ou independente de experiência ou razão. A própria definição já indica o equívoco de sua existência e danosas consequências.

O preconceito é responsável pela manutenção de paradigmas que têm atravancado o progresso humano. A palavra paradigma não tem uma conceituação que indique dificuldades ou males, mas como ela significa modelo, padrão, protótipo, está sujeita, em ações concretas e nos relacionamentos humanos, à ação do nefasto preconceito e suas manifestações.

Estas reflexões surgiram em virtude da leitura de pequeno texto, que abaixo reproduzimos, de autoria desconhecida: 

COMO NASCE UM PARADIGMA

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro colocaram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão. 

Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancadas. Passado mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas. 

Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos. 

A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não mais subia a escada. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato. 

Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato. Um quarto e finalmente, o último dos veteranos foi substituído. Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas. 

Se fosse possível perguntar a algum deles por que batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: "Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui..." 

Você não deve perder a oportunidade de passar esta história para seus amigos, para que, vez por outra, questionem-se por que estão batendo... 

Neste ponto podemos notar como a frase atribuída a Albert Einstein ganha força. Quantas e quantas situações, da vida real, não estão enquadradas nesses preconceitos impostos, dificultando, pois, a mudança de paradigmas impregnados de vícios e resistências que atravancam o progresso.

Lucidez de Kardec

E melhor ainda é defrontar-se com a lucidez de Allan Kardec em texto publicado na Revista Espírita, de julho de 1862, quando, em matéria que intitulou O Ponto de Vista, a abordagem abre caminho sobre a questão do foco de visão em que se coloca qualquer observador, sofrendo aí, neste caso, as influências de si mesmo e das circunstâncias em que se coloca. Aspectos, importância, detalhes, gravidade, foco, opções ou decisões mudam completamente de direção se alterado o ponto de vista em que se situam possíveis contendores ou diante de desafios individuais.

Apresentando o novo ponto de vista que o Espiritismo apresenta para a vida e sua finalidade, Kardec apresenta essa preciosidade:
"(...) mostra-nos a vida da alma, o ser essencial, porque é o ser pensante (...) Entretanto o homem, colocando no centro da vida, com esta se preocupa como se fosse durar sempre. Para ele tudo assume proporções colossais: a menor pedra que o fere afigura-se-lhe um rochedo; uma decepção o desespera; um revés o abate; uma palavra o enfurece. (...) Triunfar é o fim de seus esforços, o objetivo de todas as suas combinações; mas, quanto à maioria delas, que é o triunfo? Será, se não possuem os meios de vida, criar por meios honestos uma existência tranquila? Será a nobre emulação de adquirir talento e desenvolver a inteligência? Será o desejo de deixar, depois de si, um nome justamente honrado e realizar trabalhos úteis para a humanidade? Não, triunfar é suplantar o vizinho, eclipsá-lo, afastá-lo, mesmo derrubá-lo, para lhe tomar o lugar. (...)"

E, referindo-se ao desejo de mudança de paradigmas pessoais e coletivos, à luz do pensamento espírita, pondera Kardec:
"(...) Como tudo isto muda de aspecto quando, pelo pensamento, sai o homem do vale estreito da vida terrena e se eleva na radiosa, esplêndida e incomensurável vida de além-túmulo! Como então tem piedade dos tormentos que se criou à vontade! Como então lhe parecem mesquinhas e pueris as ambições, a inveja, as suscetibilidades, as vãs satisfações do orgulho! É como se na idade madura considerasse os brincos infantis; (...)"

E, convenhamos, essas últimas linhas bem indicam as manifestações e os prejuízos de tolos preconceitos, originários de paradigmas que se estabelecem pela força, pelo orgulho. Infelizmente. Nada mais a acrescentar, apesar da exuberância do texto integral de Kardec. Aliás, diga-se de passagem, todo ele, convidativo à mudança de posturas, de abertura a novos pontos de vista, para paradigmas que estimulem o progresso e a disseminação de ideias que tragam o bem geral.

07/04/2017

Um processo que pode ser deplorável ou de intensa dignidade


Orson Peter Carrara – orsonpeter92@gmail.com

Valendo-se de uma dolorosa realidade no mundo em que vivemos – e que pode ser traduzido sob outro ponto de vista no difícil e complexo momento brasileiro –, o amigo Rogério Coelho escreveu reflexão convite, referindo-se a outra região do planeta – mas que podemos perfeitamente aplicar no país em que vivemos para alterar essa egoísta situação que prevalece –, utilizando-se de belo texto parcial do grande escritor Deolindo Amorim. Trata-se do processo persuasivo, da influência que muitas vezes nos permitimos levar e que pode ser deplorável. Mas seria preferível que fosse a doce influência que educa e corrige as imperfeições morais que ainda carregamos. Acompanhe comigo, leitor:

Oriente Médio... Um táxi para na barreira policial...  No banco de trás uma jovem mãe e seu bebê no colo.  Quando os soldados se aproximam, a jovem aciona a bomba matando a todos... Em outra ocasião, constatou-se que um débil mental foi instruído a fazer explodir uma bomba amarrada ao seu corpo...
Um psicólogo que atende crianças por essas regiões verificou, entre estarrecido e perplexo, que mais de 80% de seus pequenos clientes sonham transformar-se em mártires, ou seja: homens-bomba. São constantes as explosões de carros bombas, gerando tremenda carnificina...
Os que perpetram tais barbaridades têm sofrido lavagem cerebral desde a mais tenra idade, tapeados com falsas promessas de um paraíso de gozos e delícias.   Somando-se a isso a ignorância, o fanatismo que gera o fundamentalismo e falta de melhores perspectivas de vida, eis que está feito o coquetel explosivo.
Muito antes dessa moda de homens-bomba, Deolindo Amorim já escrevia sobre a metodologia da persuasão nefasta.  Sigamos seu raciocínio: “(...) existem pessoas que têm muita autoridade sobre outras por força de amizade ou admiração exa­gerada, senão às vezes também por atrativos pessoais. Pela convivência constante, o elemento que é sempre admirado ou exaltado como ídolo passa a exercer uma influência fora do comum, e, progressivamente, essa in­fluência transforma-se em poder sugestivo absorvente. Daí por diante, aquele que se deixou influenciar demais chega a um ponto em que não tem vontade, já não é mais dono de si, como se diz, pois fica dependendo do outro em quase tudo. E quantos, ainda mais, ficam sugestionados por um discurso empolgante ou comovente! Por outro lado, há muitos casos de sugestão coletiva.
(...) Aos poucos, aparentemente sem pressa, mas injetando ideias cuidadosamente preparadas, o interessado na doutrinação do paciente obtém o que quer se não encontra boa formação espiritual capaz de repelir as insinuações jei­tosas.  A vítima da persuasão fica como que sendo usada como se fosse um objeto. Rumorosos casos de fraudes, assim como crimes de natureza política, etc., foram cometidos por influência de uma urdidura persuasiva, às vezes camuflada e demorada, mas sempre pertinaz. Não nos faltariam exemplos ilustrativos na vida social ou nos conciliábulos do vício ou do crime... 
(...) A persuasão pode ser utilmente empregada como bom meio de auxílio físico ou espiritual, quando há dignidade e amor, mas pode – infelizmente – ser praticada para fins nocivos quando não há nenhum respeito pela pessoa humana”. 
Jesus utilizou-se do amor e persuadiu milhares de criaturas a segui-lO. Aí está a persuasão útil e sadiamente empregada. Quando Ele for verdadeiramente conhecido naquelas terras explosivas, nas quais viveu há dois mil anos, as coisas mudarão.  

Aí com o final da abordagem, podemos nos situar como convidados ao suave processo persuasivo do Mestre da Humanidade, para extinguir o ódio, a separação, as divergências que tantos prejuízos tem igualmente trazido à querida Pátria Brasileira, para também alterarmos a realidade difícil dos dias atuais, com o amor com que Ele nos convida viver.

30/03/2017

Zilda Arns, seareira do Cristo

Orson Peter Carrara

Diante dos descalabros morais que abalam o Brasil, lembrei-me dela. No lamentável terremoto que atingiu o Haiti em 2010, com vasta destruição e muitas mortes, levou também de retorno à pátria de origem a respeitável Zilda Arns. Com três indicações ao Premio Nobel da Paz, Zilda dedicou sua vida ao próximo. Irmã de D. Paulo Evaristo Arns e nascida em 1934, a notável mulher integra equipe dos seareiros do Cristo em atividade no planeta: uma vida dedicada à educação, ao amparo da infância, da gestante e da pessoa idosa. Morreu na causa que sempre acreditou, como afirmou D. Paulo.

Como conhecido, indicou o portal UOL na tarde daquela quarta-feira: “(...) Médica pediatra e sanitarista, Zilda Arns era fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa, órgão de Ação Social da CNBB. A Pastoral estima que cerca de 2 milhões de crianças e mais de 80 mil gestantes sejam acompanhadas todos os meses pela entidade em ações básicas de saúde, nutrição, educação e cidadania (...)”. É preciso falar mais?

Essa fecunda atividade no bem, normalmente em favor dos desfavorecidos de toda ordem, como a infância abandonada ou desnutrida, gestantes carentes e também pessoas idosas ou mesmo pessoas marginalizadas é grande marca dos seareiros do Cristo, que se inspiram no exemplo de Jesus, apesar das fraquezas e limitações humanas. Não perdem tempo com contendas, reclamações, justificativas, acusações ou dificuldades. Simplesmente trabalham. Trabalham porque reconhecem as dificuldades que aguardam a decisão humana, trabalham porque confiam no bem, trabalham porque sabem que o Mestre da Humanidade espera pela nossa decisão de amar.  Basta observar. Assim foram quando na passagem pelo planeta Irmã Dulce, Madre Tereza, Chico Xavier e outros valorosos vultos da história humana, ainda que muitos permaneçam anônimos, desconhecidos e mesmo na maioria das vezes incompreendidos e marginalizados. Cada um em seu estágio e atividades próprias, mas todos dignificando a condição humana.

Há um detalhe a não ser esquecido, porém: todos somos imortais. Por terremoto, doenças, acidentes, idade avançada ou outras casas, todos deveremos retornar à condição primeira de todos nós: seres imortais. Por isso, Zilda, como tantos outros, que continuam a trabalhar, ainda que invisíveis aos limitados olhos humanos, também continuará sua luta de fé e trabalho pelo bem, ainda que com o corpo físico destruído. O corpo não é alma; o corpo é mero instrumento temporário. O espírito vive e é imortal.

No caso da notável personalidade Zilda Arns, sete anos depois, não é a morte que interrompeu seu amor e dedicação à causa do bem, o amor ao semelhante em dificuldade ou sofrimento. Também a morte não afetou sua fé, sua confiança em Deus, sua determinação e perseverança nos ideais que abraçou. A morte apenas nos transfere para outra esfera, mas os laços de sintonia, afeto, esses continuam. Para nós, fica o exemplo de solidariedade, de humanidade. Exemplo dessa grande alma que também parte no trabalho, deixando a marca do bem em seus luminosos passos. Quanto ao terremoto, desafio para o nosso raciocínio de pensar por quê?

Como conciliar a bondade e grandeza do Criador com tanta violência e dor? É incompatível, não é mesmo? Há que haver uma causa anterior que determine tais acontecimentos e isso encontra explicação lógica na pluralidade das existências, princípio básico da Doutrina Espírita. O assunto é vasto e para ser entendido em toda sua amplitude precisa ser pesquisado, estudado. Por isso recomendamos, com ênfase, o estudo do tema em O Livro dos Espíritos, especialmente nas questões 737 a 741 e atreladas às questões 166 a 171 e 222, entre outras.

23/03/2017

Fez-nos falíveis

por Orson Peter Carrara

Não é difícil constatar a realidade das imperfeições morais que todos carregamos. Ainda somos seduzidos pela vaidade, pela ganância, pela arrogância. Também sucumbimos às variadas paixões, pelos interesses egoísticos, pelo orgulho desvairado. Somos capazes de manipular nos bastidores, transitamos com malícia e libertinagens nos caminhos da mentira e da corrupção; mentimos, trapaceamos, enganamos, enganamos a própria consciência. Cobiçamos bens alheios, invejamos posições, ficamos enciumados e carregamos boa dose de prepotência e pretensões descabidas, sem qualquer sentido que as justifiquem.

A realidade atual do planeta é bem destacada demonstração da mediocridade interior que ainda caracteriza nossa condição humana. O Brasil, por sua vez, mostra o total desequilíbrio que fomos nos situar por força dessas imperfeições todas que nos faz discutir por bagatelas, perdendo-nos dos verdadeiros interesses do viver para aprender.

Desanimador? Não! Motivador, ao contrário.
A Sabedoria Divina nos fez falíveis. Criou seres ignorantes justamente para que aprendessem e amadurecessem pela experiência das vivências, nos enfrentamentos todos que todos os dias são verificáveis. Fazendo-nos falíveis, passíveis de equívocos variados, dominados e seduzidos por paixões e interesses diferentes, sabia desses salutares enfrentamentos e equívocos que nos permitiríamos por ignorância e principalmente por ILUSÃO. Sim, iludidos pelo poder, pela autoridade, pela ganância, por pretensa superioridade.

Mas aí está o grande “x” da questão. Justamente por sermos falíveis e tais equívocos nos encaminharem às colheitas da semeadura – mais cedo ou mais tarde –, somos levados igualmente às reavaliações de posturas e comportamentos, amadurecendo a consciência e elevando o sentimento.

Convenhamos! Em quantas ilusões nos apegamos! Quanta bobagem, quanta ilusão com valores perecíveis! Observemos as lutas de interesse do país. A que isso levará? A curto e médio prazo, a aflições que poderiam ser dispensadas. A longo prazo a experiência constatadora do quanto tempo perdemos com bagatelas.

A realidade é, pois, altamente motivadora aos aprendizados. Retirar dessas situações todas experiências reflexivas para sermos melhor. Melhorar o padrão moral, o comportamento, o palavreado, sublimar os interesses, desenvolver a fraternidade.

Estamos ainda muito iludidos pelo TER, esquecendo a principal finalidade de viver; o SER. O ser que ama, que respeita, que aprende, que reconhece sua pequenez e movimenta forças para viver solidário. Iludidos, ficamos nas infindáveis discussões, esquecendo o principal.

Verifique-se as esferas de poder. Retrato fiel do império do materialismo, total desconhecimento de nossa realidade imortal. Mas busque-se também a esfera individual, na própria consciência. Como estamos? O que estamos sentido? O que buscamos? Quais nossos verdadeiros interesses?

Há um sentido para tudo isso: é o Divino Convite do Supremo Doador da Vida para que assumamos nossa condição de dignidade, saindo da esfera dos falíveis para a envergadura dos que se esforçam para a libertação dessa autêntica prisão da ignorância. Fazer-nos falíveis é Sabedoria que convida à permanente busca da perfeição, ainda que relativa. Em outras palavras, para síntese conclusiva: educação de nós mesmos, especialmente no sentir e viver a dignidade de nossa condição de filhos de Deus! Preconceitos e ilusões só levam a doloridos tropeções... melhor a disciplina do aprendiz que supera gradativamente a condição de falíveis.

15/03/2017

Acordam os que dormem

Orson Peter Carrara – orsonpeter92@gmail.com

Valho-me de texto do notável amigo Rogério Coelho, de Muriaé (MG), em transcrições parciais e com mínimas adaptações, para oferecer ao leitor a preciosidade dessa reflexão sobre o processo sábio das aflições como instrumento depurativo para despertamento dos que dormem, indiferentes ou omissos, diante das graves responsabilidades de viver. Reflete o articulista amigo:
Bem-aventurados os que choram (aflitos), pois que serão consolados” - disse Jesus.
Nem todo aflito ou todo aquele que chora será consolado... As aflições são processos depurativos, que chegam ao homem, concitando-o à meditação em torno da problemática da existência, que não pode ser conduzida levianamente. Tua aflição mede o teu estado espiritual e representa o patrimônio de que dispões para recuperares a paz.

Dores de hoje, dívidas de ontem.  Aquele que ora se aflige, recupera-se das aflições que a outrem impôs, por isso "só na vida futura", se hoje bem se conduzir, será consolado.

Há, todavia, aflitos que se fazem afligentes, explodindo, em rebeldia, contra os fatores causais das suas necessidades evolutivas, não raro assumindo uma falsa posição de vítima e engalfinhando-se, nas disputas do desequilíbrio pelo trânsito, através do corredor da loucura por onde derrapam.
Há aflições que se fazem fardo de pesado ônus para aquele que da vida somente considera as vantagens utópicas, isto é, as transitórias alegrias decorrentes da ilusão.

Muitas aflições têm a medida que se lhes atribui aumentando-as ou valorizando-as, em face de uma atitude falsa ou decorrente da exigência de um mérito que em verdade não se possui...

Os aflitos a que se refere o Mestre são aqueles que da tribulação retiram o bom proveito; aqueles que encontram na dor um desafio para superarem-se a si mesmos; os que se abrasam na fé ardente e sobrepõem-se às conjunturas dolorosas; todos os que convertem as dificuldades e provações em experiências de sabedoria; os que sob o excruciar dos testemunhos demonstram a sua fé e perseverança nos ideais esposados, porfiando fiéis aos compromissos abraçados...

Os aflitos humildes e que se convertem em lições vivas de otimismo e de esperança  ̶  eis os que serão bem-aventurados, porque após as dívidas resgatadas, os labores realizados, os testemunhos confirmados, "serão consolados" pela bênção da consciência tranquila, no país da redenção total.
Tua aflição é o caminho da tua vitória sobre ti mesmo. Ela te dará a medida da tua fraqueza e a grandeza do amor e da sabedoria do Pai Criador.

Utiliza-te da sua metodologia para o mais breve triunfo que te cumpre alcançar.
Aquele que se arrepende de um mal, está aflito; aquele que se encoleriza, sofre aflição; quem persegue, padece agonia; quem inveja extremunha-se e chora; quem odeia, galvaniza-se sob o açodar da fúria e combure-se nos altos fornos do desequilíbrio que gera. Estes não serão, por enquanto, consolados.  Somente quando a consciência da dor os faça amar, submetendo-os à Divina Vontade, encontrarão na aflição a felicidade por que anelam.

A aflição está na Terra, por ser este um planeta de provas e dores, onde a felicidade ainda não se instalou, nem poderia fazê-lo por enquanto...
Concentra desse modo, as tuas aflições no Afligido em dívidas e entrega-te a Ele, seguindo-Lhe o exemplo, e, enquanto te encontres aflito, procura diminuir a aflição do teu próximo. Assim, fazendo, serás consolado, porque, conforme já sabemos, "as vicissitudes da vida derivam de uma causa e, pois que Deus é justo, justa há de ser essa causa". Sofrendo-as com resignação, superá-las-ás, encontrando a paz."